terça-feira, julho 20

Canoeiros da alma

in: http://saraunofitub.blogspot.com/

por Viegas Fernandes da Costa

Na noite do dia 14/07, sob o frio intenso e úmido que se abateu sobre o Vale do Itajaí, o “Coletivo Teatro da Margem”, da Universidade Federal de Uberlândia (MG), apresentou o espetáculo “Canoeiros da alma”, no galpão da central de veículos da Prefeitura Municipal de Blumenau. O espetáculo integra a Mostra Universitária Nacional, e a escolha do local da apresentação já indicava tratar-se de peça pouco convencional.
Com texto de Luis Carlos Leite e direção de Narciso Telles, “Canoeiros da alma” surgiu das leituras que o coletivo fez do universo das pessoas que habitam as margens do rio no Vale do Jequitinhonha. Rio que é sempre diferente, quando diferentes os olhos ou a alma de cada um que busca suas águas, suas margens e as experiências que se constróem em seu entorno. O sagrado e o profano, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza, o dito e o não-dito, candura e violência são temas que surgem no desenrolar do espetáculo, que apesar de possuir uma narrativa que o conduz, é composto por muitas peças que se sobrepõem, muitas vezes de forma simultânea, convidando o público a ter uma experiência direta e íntima com os personagens.

“Canoeiros da alma” não é um espetáculo que se assiste, mas do qual se participa. Não há poltronas, arquibancada ou palco, mas um imenso pátio mergulhado na penumbra e no qual atores e público se misturam, os focos de luz indicando pontos de tensão dramática para onde cada espectador é convidado a dirigir sua atenção e no qual se desvelam tipos e suas histórias intrínsecas: um grupo jogando cartas, uma procissão, um oratório, os vendedores ambulantes, o suicida, os noivos, as lavadeiras, a sensualidade da vida e a violência da morte, velas, gritos, voz e força, enfim, todo um universo complexo e do qual é impossível se apropriar enquanto totalidade una. O que se tem é o tumulto da vida real, a azáfama de uma feira, a solidão de multidão, mas que a peça procura problematizar quando propõe histórias que possuem voz e rosto, histórias de gente anônima das quais sequer supomos existência. E todos lavam suas roupas, e todos lavam seus corpos, como se a alma estivessem a lavar.
Sem exageros, um cenário intimista ao qual o público é convidado a tocar e interagir, e com figurinos, trilha sonora e elementos cênicos que procuram inserir a todos no contexto simbólico do Vale do Jequitinhonha, “Canoeiros da alma” impressionou e arrebatou o público.



Fotos: Daniel Zimmermann / CCM Furb.

sexta-feira, junho 4

brecha pra um corpo devaneante - momentos de um corpo investigativo

O corpo sofre uma agressão.

Ele se desestabiliza, rompem-se as estruturas até então consistentes.

Abala-se,

perde pele,

se desnuda.

Nessa situação encontra-se suscetível

às invasões e estímulos oriundos do ambiente.

Fragilizado, percebe que isso provoca grandes e pequenos movimentos internos,

dialéticos,

circulares.

Estando o corpo caindo num precipício, algo o modifica,

ele não se sustenta, não se segura,

o movimento é a queda livre e não há como pará-la,

a não ser quando encontra-se o chão.

Mas nesse caso não há chão, há o vazio.

Pensamentos o afetam numa velocidade em que não podemos detê-los,

ou podemos.

Acontece que, se os detemos não sentimos a queda.

O corpo que se encontra no movimento vertical ocasionado pela lei da gravidade não é o mesmo corpo do início da queda.

Aqui, também é preciso desnudar-se, a fim de ser invadido pelo vento provocado pelo rompimento do ar pelo corpo.

O corpo vai conhecendo o vazio e modificado, modifica os vazios seguintes à queda, digamos,

o corpo pode experimentar diversas formas de cair transformando o ar através de seus movimentos.

É importante que se perceba o deslocamento,

mesmo que este esteja confuso.

Então, corpo e vazio tocam-se

em maneiras e momentos distintos,

modificam-se.

Há uma relação.

Ou melhor,

há a relação a partir do momento que corpo e vazio deixam-se expostos e abertos a perceberem-se mutuamente.